“Se era tarde eu nao sei, a única coisa que eu sabia era que seria impossível dormir naquela noite. Eu estava suando, mas era inverno. Alguma coisa me dizia que eu não podia dormir, não agora… “alguém em perigo?” Tomei um banho gelado, me enrolei na toalha e saí do banheiro tremendo devido ao frio. Sem noção nenhuma do tempo, olhei para o relógio e marcava 3:18 da madrugada de um sábado. Decidi então caminhar na praia — não sei porque mas sempre fui chegado a praia — vi alguns carros passando cheio de adolescentes voltando de festas, alegres e bêbados. E eu me perguntei porque eu não estava alí se a três semanas atrás era eu dirigindo o carro da minha mãe que peguei sem ela perceber. Três semanas. Vinte e um dias. 504 horas para ser mais exato. Então eu fechei meus olhos e veio aquela luz forte do farol do trem e a cara de pânico do meu pai, sem saber o que fazer, até que…
— Oi, licença mas… Você está bem? — Ela tinha os olhos claros e os cabelos castanhos.

E, eu, sem saber o que falar apenas balancei a cabeça formando um sinal positivo.

— Hm, então ok. — Ela se virou e começou a caminhar sentido contrario ao meu.

Eu voltei ao meu estado normal e fui atrás dela.

— Espera! - Eu gritei alcancando o seu braco — Eu tava meio… Hm… Distraído. — dou de ombros.

— Percebi — ela sorri.

— E o que você está fazendo sozinha a essa hora? — perguntei.

— Eu gosto das estrelas — ela diz tentando me convencer — E você?

— Insônia…

— Então.. Acho que é isso…

— Tu gosta de açaí? — acabo a interrompendo, sem querer que o assunto acabe.

— Claro, mas tem algum aberto a essa hora?

— Conheço um que deve estar.

Caminhamos até o bar e pedimos duas tigelas de açaí.

— Mas eu ainda não sei o seu nome, garota das estrelas — e sem perceber, eu estava sorrindo, coisa que nao fazia a algum tempo.

— Luísa, e o seu, menino insônia?

— Cauê…

O garçom chega com o açaí e os coloca na nossa frente.

Após conversarem, Cauê deixou Luísa em casa e eles trocaram seus numeros de telefone. Realmente felizes, ambos gostariam de se ver novamente.

— Tem uma praia aqui pertinho, mas poucos sabem… Topa?

— Passa aqui as 14h?

— Pode deixar — Cauê desliga o telefone e comeca a fazer sua mochila para ir à praia.

(Já na casa de Luísa, Cauê dá uma businada até que ela aparece na janela e faz um sinal de que já está descendo)

— Pronta? — Bato na porta do carro.

— Antes tarde do que nunca — ela ri.

Após um dia inteiro na praia, vendo o pôr-do-sol juntos ela enfim pergunta:

— Lembra aquele dia na praia?

Balanco a cabeça dizendo que sim.

— Quanto você estava “ distraído”… Distraído com o que? — Ela hesita.

— Um tipo de um “flash back” — respondo, tentando olhar para qualquer coisa menos nos olhos dela… Nao quero me entregar, não quero cair.

Ela tenta disfarçar, fingir que não está curiosa, desviando os olhares a todo o momento.

— A mais ou menos três ou quatro semanas atrás eu sofri um acidente e acabei perdendo o meu pai. Nós estávamos parados em cima da linha do trem quando o carro morreu, não deu tempo de sair, de pensar o que fazer. Sua mente deve estar a milhão perguntando ”E porque não correram? Não abriu a porta e se jogou pra longe do carro?”… Acredite, me faço essas perguntas todas as noites antes de dormir.

— Eu… Eu sinto muito.

— É, eu também.

O clima fica tenso, e sem saber o que falar ficamos em silêncio por meio minuto.

— E você? O que realmente foi fazer lá? — Perguntei, mexendo na areia com os pés.

— Eu já disse — ela ri — São as estrelas, imagina uma coisa pequena aos nossos olhos e…

— Perdidas numa escuridão sem tamanho — Eu completo olhando para o céu.

— Viu, até você já esta pegando — e rimos.

Eles juntam suas coisas e vão para casa. Cauê desce do carro e a acompanha até o portão.

— Você quer subir?

— Hoje não… Desculpa.

— Hm, ok.

— Tu curtiu o dia de hoje? Foi diferente, né?

— Ah sim, claro… Eu realmente amei —- ela sorri.

— Então é isso.

— Olha, não fica grilado só porque eu perguntei o que aconteceu tá? Eu não tinha ideia, se eu soubesse evitaria…

— Tá tranquilo, foi até melhor desabafar, saca? — dou de ombros.

— Então vou subir — ela se inclina para me dar um beijo de despedida, mas eu viro o rosto e nos beijamos.

— Te vejo mais tarde — Digo, sorrindo e envergonhado.

Entro no carro, paro por um segundo e percebi que estava completamente feliz. Liguei a música no máximo sem me importar se os outros vão achar ruim ou não, dirigi sorrindo e cantando até chegar em casa. Tomo um banho e deito na cama, sem me importar se ficará molhada depois. Ligo ou não ligo?… Ligo, não ligo, ligo, não ligo… Porra, vou ligar logo! Pego o celular e chamo.

— Alô? — Aquela voz de menina doce, delicada… Soa como música, fiquei tão distraído que esqueci de dizer “oi”.

— Ah, é, oi… Aqui é o Cauê — minha voz sai trêmula.

— Com vergonha de falar comigo? — Ela ri.

— Não pô, claro que não — eu rio — É, tem planos pra hoje a noite?

— Ainda não…

— Ainda?

— É, tô esperando você me chamar pra sair — ela ri.

— Então considere-se com planos! — dou uma risada de leve — Quer ir num luau?

— Passa aqui as 21h?

— É pra já.

Desligo o telefone e me arrumo, espero até das as 21:00 depois pego meu carro e estaciono em frente ao seu prédio, mando um SMS dizendo que já estou em baixo esperando. Quando se passam mais ou menos dez minutos a vejo vindo na minha direção.

— Você está linda — digo sorrindo enquanto ela me comprimenta com um selinho.

— E você cheiroso — ela ri.

Chegamos então, e curtimos sozinhos… Uma noite a dois com uma música um pouco longe de nós. Ficamos sentados na areia fofa e aproveitando que era lua cheia até que ela boceja…

— Tá cansada? — pergunto, passando meu braço em volta dela e a trazendo para mais perto de mim.

— Um pouco… Aquela praia me matou!

— Vem, vamos pra casa… — Pego em sua mão e andamos assim até o carro, e quando chegamos ela diz:

— Vamos para sua casa… Minha mãe brigou com o meu pai e o clima está feio lá em casa.

— Claro, como quiser — sorrio e dou um beijo em sua bochecha, de leve.

Chegamos em casa e tirei a camisa como de costume.

— Quer ver um filme? — perguntei.

— Pode ser — ela deu de ombros.

Deixei ela escolher entre uns DVDs que eu tinha. Deitamos no sofá e ficamos abraçados. Eu, pouco interessado no filme a encarei por alguns segundos, e foi o tempo suficiente para ela notar e me beijar. E fomos nos envolvendo. Levantei e fomos nos beijando até chegar no meu quarto… Ela tirou a minha roupa, e eu a dela e… Rolou. Eu a abracei e dormimos assim.

“Tive que ir embora e não queria te acordar… Até algum dia.”

Foi esse bilhete que encontrei no lugar dela quando acordei… Mas espera aí ”Até algum dia?” Peguei o celular em seguida e liguei pra ela, liguei umas cinco vezes e todas deu caixa postal. Olhei para o relógio e marcava 15h34, tomei um banho correndo e fui atrás dela. Fui em todos os lugares possíveis e nada. Já era 22h00 e eu estava cansado mas ainda não tinha checado um lugar: a praia. Peguei meu carro e fui o mais rápido possível, o caminho inteiro fui pedindo para que ela estivesse lá mas… Quando cheguei, a praia estava deserta. Cansado e triste decidi ir pra casa. Quando cheguei lá sabia que não ia dormir tão cedo, então peguei alguns calmantes e tomei todos de uma vez. Abri a porta do meu quarto e capotei na cama com as mesmas roupas que estava. Sonhei com ela. Um anjo perfeito me dizendo coisas que… Eu não entendia.

Eu perguntei porque ela foi embora, e ela respondeu exatamente com essas palavras:

— Eu tinha uma missão, e quando as cumprimos temos que voltar para o lugar que pertencemos.

— Que missão? Que lugar? Do que você tá falando?

— Seu pai me pediu para te deixar feliz e esquecer do acidente.

— Meu p.. pai?

— É, ele não pode falar diretamente com você e então pediu isso à mim. Ele pediu também para você não se sentir culpado porque foi tudo um acidente. Deus apenas chamou ele e quando Ele chama… Não tem como negar.

— Mas..

— Não fique chateado, você está feliz agora… Apenas siga a sua vida e estaremos olhando por ti, sem te deixar cair.

— “Estaremos”?

— Sim — ela sorri — Nem todos tem a permissão de aparecer para você, mas todos tem o dever de cuidar de você. Agora vai, não pode mais ficar aqui… Você tem uma vida inteira pela frente.

E então acabou. Acordei assustado, mas feliz porque tudo tomou seu rumo certo.”

~ Isitbymyself. (via isitbymyself)
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folhas de prata.


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theme by querida solidão; base por nothing, com alguns detalhes originais da letycia